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GUITA CHARIFKER

Publicado no Diário de Pernambuco de 04/02/2017

guita-foto-tratadaNuma madrugada de sessenta e quatro, Abelardo da Hora bateu-lhe à porta pedindo socorro. Estava a pé, ofegante, fugindo da polícia repressiva. Guita Charifker não titubeou um só instante em levar o amigo de carro para bem longe, onde pudesse se esconder por uns tempos. Essa história me foi contada pelo próprio Abelardo, ressaltando sempre a coragem de Guita em ter se arriscado para salvá-lo.

Uma das poucas pintoras pernambucanas que conseguiram obter reconhecimento nacional. Em 2003, a artista foi não menos que aclamada pela crítica durante sua exposição individual na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Atualmente, suas aquarelas com predomínio de verdes, vermelhos e laranjas, suas telas, seus desenhos surreais em bico de pena, podem ser encontrados nos principais acervos museais brasileiros.

Guita Charifker constitui, ainda, a representação máxima do que se poderia chamar de sincretismo judaico-nordestino, alinhavando elementos da sua infância ao admirável mundo novo do regionalismo tropical. É notável a infinidade de signos e elementos místicos ou religiosos presentes em sua obra, inclusive os de matriz africana e indígena. São cartas de tarô, tatus, búzios, santos, paisagens nordestinas povoadas de cajueiros e plantas. A artista chegaria mesmo a passar um bom período da vida recolhida a um convento de freiras.

Nascida em 1936, teve a infância e adolescência vividas no bairro da Boa Vista, epicentro de tudo o que se produzia em termos de arte e literatura no Recife. Após se casar com Júlio Charifker (seu nome de solteira era Guita Greiber), em 1959, mudou-se para a Rua do Sossego, onde instalou seu ateliê de trabalho na garagem de casa. Decorridos quinze anos, transferiu-se para Olinda, à procura de um ambiente mais inspirador para seus quadros. Antes disso, na década de cinquenta, frequentou o Atelier Coletivo, sob a batuta de Abelardo da Hora e tendo como colegas, Zé Claudio, Gilvan Samico, Wilton de Souza e Wellington Virgulino, dentre tantos jovens artistas que viriam simplesmente revolucionar a arte pernambucana.

Guita Charifker considerava-se uma descendente de Branca Dias da Paraíba, ou mesmo sua reencarnação. Um alter ego muito bem pinçado por uma mulher que em pleno século 20 teve a mesma ousadia daquela que, trezentos anos antes, enfrentara a fogueira da Inquisição para não trair seus ideais. Pois esta mulher ousada, esta artista incomum, a mocinha de tranças que passeava às tardes na Praça do Derby com uma multidão de amigas, nossa Branca, atendeu ao convite dos céus e eternizou-se nesta sexta-feira, véspera do shabat. Em credos distintos, em línguas diversas, em corações sinceros, será para sempre festejada.

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Minha tese acerca do neocolonialismo interno que privilegia o Sudeste em detrimento do Nordeste saiu online no Jornal do Commercio. Leia em:

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/politica/pernambuco/noticia/2017/01/29/grupo-quer-separacao-do-nordeste-do-brasil-268454.php

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FELIZ NATAL E CHANUKÁ SAMEACH!

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Jacques RIbemboim, diretor da Synagoga Israelita do Recife.

Neste ano de 2016, a noite de Natal coincide com o primeiro dia de Chanuká, festividade judaica que comemora a libertação do templo sagrado, no ano 165 AC. Naqueles tempos, a Terra de Israel estava sob domínio selêucida do imperador Antíoco Epifânio, que intentava helenizar os judeus valendo-se de toda crueldade, ordenando que o templo fosse profanado com estátuas de deuses gregos.

Na cidade de Modin, perto de Jerusalém, a família de Judá, o Macabeu, decidiu organizar a resistência e conseguiu uma surpreendente vitória contra os gregos. Ao retomarem o templo, quando tentaram acender as luzes sagradas, perceberam que o óleo purificado só daria para um único dia e que não haveria tempo suficiente para providenciar um novo estoque. Contrariando as expectativas, o azeite ardeu milagrosamente por oito dias, um sinal de que Deus estava com o povo.

A vitória dos macabeus contra o poderoso exército invasor fez ressurgir uma nação que não gozava de liberdade desde a queda de Jerusalém frente os babilônios, em 586 AC. E o novo reino dos asmoneus, instalado por Simão, um dos irmãos de Judá, permanecerá independente por cento e três anos, até a chegada dos romanos (desde então, os judeus só voltariam a conquistar sua independência em 1948, com o advento do moderno Estado de Israel, quase dois mil anos depois).

Durante o acendimento das velas de Chanuká, uma oração relembra a perseguição por príncipes estrangeiros. Não foram poucos os que tramaram contra o povo judeu. Faraós do Egito, Nabucodonosores, Hamans da Pérsia, Antíocos Epifânios e Titos de Roma, diásporas, inquisições e pogroms. Tantos foram os Hitlers, Nassers, Sadam Husseins e Armadinejavs. Todos passaram. E os filhos de Israel permaneceram. Am Israel chai le olam vaed. Está escrito.

A data possui um significado bíblico e forte conteúdo espiritual. Rememora-se a liberdade duramente conquistada. Renovam-se as esperanças, mesmo nas piores adversidades. Durante os oito dias de comemoração, brilha a chanukiá, candelabro de nove velas, incluindo a do shamash, que serve para acender as demais. No primeiro dia, acende-se o shamash e mais a primeira vela. No segundo dia, o shamash e duas velas mais, e assim por diante, até que no oitavo dia, a chanukiá reluz por inteira.

Registre-se que a última vez em que o Natal e Chanuká coincidiram no mesmo dia foi em 1978, e a próxima será em 2027, pois o calendário israelita é lunar, diferentemente do gregoriano, que atende à órbita em torno do sol. Em ambas as celebrações, o momento é de reflexão, alegria, solidariedade e amor ao próximo. Muita comida entre familiares e amigos, em casa, na igreja ou na sinagoga. Na tradição judaica, as crianças e os não diabéticos se esfalfam em doces, muitos doces, principalmente nos sufganiot (sonhos fritos).

Possuindo origens distintas, o Natal e Chanuká adquiriram uma mesma essência. Que neste 25 de dezembro, que é também o dia 25 de kislev, batamos de porta em porta oferecendo nossas mãos. Que as luzes da cristandade e do judaísmo possam se misturar às de todas religiões, credos, ideologias e convicções. Feliz Natal e Chanuká sameach!

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OPINIÃO/Diario de Pernambuco, 16/08/2016

Acerca das Olimpíadas

JACQUES RIBEMBOIM, Economista ambiental

“Que as medalhas conquistadas nos sirvam de estímulo para mais solidariedade social, defesa ambiental, dedicação aos estudos e ao trabalho”

Do espírito olímpico dos tempos de Coubertin, pouco resta nos corpos cientificamente esculpidos dos atletas. Os patrocinadores querem retorno. Os cartolas, vantagens. Os competidores, dinheiro e fama. E o público em geral, entretenimento e assunto para o dia a dia.

Antes disso, quando o mercado ainda não se tornara o todo-poderoso de nosso dias, as ditaduras de direita e esquerda usavam e abusavam das olimpíadas como propaganda ideológica. Hitler o fizera em 1936, e nas décadas subsequentes países como Cuba, Polônia, Alemanha Oriental e União Soviética angariavam corações e mentes na proporção dos pódios conquistados. Hoje, o totalitarismo é do mercado.

Que a prática esportiva seja desejável, enriquecedora e salutar, não restam dúvidas. Desde os gregos, mens sana in corpore sano, receita da vida longa e feliz. Mas a deformação dos músculos e a obsessão mental a que se submetem tantas juventudes roubadas é uma questão a se refletir. Muitas histórias de superação, muito romance, mas quantas frustrações reais não teriam ficado no meio do caminho? Os atletas de renome, estes transformados em semideuses e marcas de refrigerante. Difícil imaginar outro setor tão atraente para o mercado. Enquanto isso, no Brasil, investe-se pouco no aprimoramento educacional e cultural da população.

Para os atuais jogos, avulta a gastança pública. Tal como aconteceu na Copa do Mundo, um dinheirama desperdiçado em um país de premências. Parcela considerável da nossa energia drenada para instalações faraônicas, em meio ao constrangimento das desigualdades sociais, da violência urbana, da recessão econômica, da corrupção que enjaula políticos e empresários.

Para esta Olimpíada, o governo brasileiro e as empresas privadas cuidaram de enviar atletas para treinar no exterior. Todo cuidado é pouco para evitar outro vexame de sete a um. A bem da verdade, nosso país nunca atingiu performances de escol. Nos jogos de Londres, classificou-se em vigésimo segundo, mas se o ranking fosse de medalhas por habitante, restaríamos em sexagésimo nono, posição não muito diferente da que ocupamos na classificação do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano.

Em meio a tanto pessimismo, vale buscar o de mais positivo na grande festa desportiva, alegria e sopro de esperança. Que as medalhas conquistadas nos sirvam de estímulo para mais solidariedade social, defesa ambiental, dedicação aos estudos e ao trabalho.

Conseguiremos?

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Artigo do Jornal do Commercio, Recife, de 20.05.2016

UM GOLPE DA DEMOCRACIA

Jacques Ribemboim, economista ambiental e engenheiro de petróleo.

A verdade em xeque. Mas será que ela existe? O grego Carnéades responderia que não. São Tomas de Aquino, que sim. Descartes, conforme o referencial, e os cubistas, conforme a perspectiva. Os franceses, sempre pródigos em relativizar, aplaudiram quando o alemão Einstein descobriu a relatividade. E Goebbels martelou, até a fim, que uma mentira repetida mil vezes vale por uma verdade. Agora, deparamo-nos com uma proposta inovadora, formulada por Dilma Rousseff e um grupo de petistas ranhetas.

Para eles, “impeachment é golpe!”. Escrito assim, com exclamação, na forma de slogan. Em decorrência, eu precisaria urgentemente me reconhecer como golpista. E aceitar que minha tia também o seja. Meus vizinhos, seriam todos, assim como minha diarista e o zelador do prédio. Os colegas de trabalho, quase todos, golpistas. E golpistas seriam os goleiros do Sport, Náutico e Santa Cruz. Afinal, como justificar a destituição de uma presidente eleita democraticamente, com o voto da maioria da população brasileira?

Maioria da população? Nada disso. Dilma foi sufragada no segundo turno, em 2014, com 51,6% dos votos válidos, provenientes de 54,5 milhões de eleitores. Isto corresponde a um quarto da população total; a 38% dos eleitores registrados e a 48,4% dos eleitores que compareceram às urnas. Somando-se os votos nulos, em branco ou destinados a Aécio Neves, o total é aproximadamente de 51,6%. Como se vê, a maioria disse “não” a Dilma.

Não me deterei, neste artigo, descrevendo os motivos pelos quais acreditamos que o acolhimento do pedido de impeachment é constitucional, legal e legítimo. Nem mesmo lembrar detalhes da esmagadora votação na Câmara, com um placar de 367 a 137; e no Senado, de 55 a 22; ou, ainda, do julgamento favorável no STF, de 9 a 1, em cuja composição da corte, nada menos que oito nomes foram indicados e aprovados pelo próprio PT.

E também não precisamos apelar para a velha máxima de “dois pesos, duas medidas” para recordar que os deputados petistas impetraram diversos pedidos de impeachment contra absolutamente todos os presidentes que tiveram mandatos anteriores à Lula e posteriores à redemocratização. A imprensa já noticiou isso fartamente.

Penso que, no Brasil de hoje, na seara das verdades e mentiras, estabelece-se uma nova e curiosa gradação taxonômica: 1 – a verdade (sempre relativa); 2 – a meia-verdade (ou meia-mentira, a depender do advogado); 3 – a verdade encontrada na internet (geralmente mentira); 4. a mentira (refutável à Popper); 5 – a mentira cabeluda (que nem precisa ser refutada) e, finalmente, 6 – a mentira cabulosa (categoria especial, criada exclusivamente para o lema “impeachment é golpe!”).

O mantra petista é cabuloso, sim. Porque fadiga os ouvidos, ameaça a inteligência e intimida os amigos. E mais que tudo, ofende a memória.

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A “bolha-Brasil” – JORNAL DO COMMERCIO, Recife, 18.09.2010

Jacques Ribemboim, jacquesribemboim@oi.com.br

Contrariamente ao que se tem propagado, os fundamentos da economia brasileira não estão sólidos. Por mais que se apregoe o contrário, o crescimento não é sustentável. A recente explosão de consumo foi antes uma resposta a estímulos fiscais e creditícios de curto prazo, e não devido a uma revolução na estrutura produtiva do País.

A crise internacional iniciada em 2008 (sem data para acabar) levou o governo a adotar medidas como a redução do IPI sobre automóveis e o aumento do crédito ao consumidor, fazendo uso dos bancos oficiais, em condições nunca sonhadas: prazos de 60 meses, juros abaixo de 2% ao mês e um bom período de carência. A classe média nunca se viu tão endividada e os lucros do Banco do Brasil foram às alturas.

Alguns economistas saudaram essas ações como sendo keynesianas. Contudo, observe-se que Keynes propunha interveniência anticíclica principalmente via estímulo do investimento, e somente após, e em decorrência deste, é que adviria um aumento do consumo. O que se vê agora é o contrário. Estimula-se prioritariamente o consumo, o das famílias e o do governo, seja por meio do crédito fácil, seja por redução de impostos, ou ainda devido ao aumento da folha dos servidores. O investimento público e privado, ao contrário, mantém-se baixo, em torno de 18% do PIB, deste modo virando Keynes de ponta-cabeça.

Na economia real, as famílias anteciparam suas aquisições, aproveitando os estímulos temporários, concentrando em poucos meses o que consumiriam nos próximos anos. Infelizmente, depois de um surto consumista, vem sempre uma crise de sustentabilidade, em particular, no setor de imóveis e de bens duráveis em geral.

Enquanto isso, os projetos públicos de investimentos em infraestrutura permaneceram pífios porque o governo optou por expandir seus gastos correntes, em detrimento de projetos estruturadores, embora cuide de repelir qualquer rumor acerca de falta de dinheiro, atribuindo ao Ibama, ao TCU e à Lei 8.666, o atraso de suas obras (l’enfer, c’est les les autres, toujours! – o inferno são os outros, sempre!).

Em economia, não há mágicas. O governo lançou a esmo um Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC-1, sabendo que não iria realizá-lo. Em Pernambuco, só obtivemos promessas. Nem mesmo a duplicação da BR-101-Norte foi concluída no estado. Ainda assim, para fins eleitoreiros, o governo lançou um PAC-2, o qual, cúmulo da ironia, prevê a duplicação da BR-101-Sul. Se o PAC-1 foi irresponsável, o PAC-2 é imoral.

Em meio a este cenário, as pessoas confundem políticas demagógicas com políticas de desenvolvimento sustentável. A popularidade do presidente Lula tornou-se tão elevada que mesmo os políticos de oposição hesitam em criticá-lo (fenômeno a que Krugman chamaria de pop internationalism, uma unanimidade em cima do pensamento fácil). Não obstante, o chefe do executivo erra, ao favorecer o hoje em prejuízo do amanhã.

O aumento do consumo desconectado do aumento de produtividade gera desequilíbrios de médio e longo prazo, tais como, inflação, desequilíbrio fiscal, déficit comercial, elevação dos juros, endividamento das famílias, congestionamentos em geral (de trânsito, de serviços) e maior pressão sobre o meio ambiente.

O impaludismo consumista somente não deixará sequelas se admitirmos que nos próximos anos as famílias consigam, simultaneamente: (a) pagar os juros dos empréstimos, (b) amortizar suas dívidas e (c) manter o atual ritmo de consumo. Como não há nada que justifique tais expectativas (pois a produtividade do trabalho e do capital não foram substancialmente alteradas via investimento), dificilmente teremos um desfecho feliz para esta história.

Muito provavelmente o governo precisará induzir inflação para amenizar a dívida pública interna, trazendo alívio também aos devedores privados que tenham seus empréstimos a juros pré-fixados. Outra hipótese é a de que a economia passará por um período recessivo de modo a acomodar os exageros do biênio 2009/2010, ameaçando, por inadimplência, todo o sistema financeiro.

» Jacques Ribemboim é economista

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HUMBERTO FRANÇA – EMBAIXADOR DA NEOLATINIDADE

revista A Palavra

GEONOMÁSTICA PERNAMBUCANA

   (Diário de Pernambuco: 08.04.2016)

artigo geonomástica

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UM PARQUE NO CEMITÉRIO – DIÁRIO DE PERNAMBUCO

11/03/2016

um parque no cemitério 11032016

entrevista: economista afirma que a crise atual começou no último biênio do governo Lula:

clique aqui:

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/economia/pernambuco/noticia/2016/03/06/economista-diz-que-a-atual-crise-comecou-com-medidas-tomadas-no-ultimo-bienio-do-governo-lula-224438.php

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Diário de Pernambuco, 24.02.2016

GOIANA DA GENTE QUERIDA*

Jacques Ribemboim, economista ambiental e engenheiro de petróleo.

Na Revista do Instituto Arqueológico Pernambucano vol.XXIX, de 1928, Mário Melo escreveu que o nome da cidade de Goiana provinha do tupi e derivava de uma espécie de goiaba típica da Mata Norte, fato que ensejou veementes protestos dos intelectuais do município, tendo à frente Ângelo Jordão Filho, autor do livro Povoamento, Hegemonia e Declínio de Goiana. O grupo defendia a tradução de Varnhagen, segundo o qual, o nome quer dizer “gente estimada”.

Não obstante a reação dos goianenses, Mário Melo não voltaria atrás, alegando que “guaia” significava “roliço” e que o monossílabo “na” designava “semente”. O jornalista chegou a dizer que Varnhagen podia entender de história, mas não de nhengatu (língua tupi), e evocou Batista Caetano, renomado tupinólogo, que corroborava a tese de que “guiá” era uma fruta do gênero psidium, do tipo das goiabas e araçás. Destacava, ainda, que o próprio Rodolpho Garcia, da Academia Brasileira de Letras, confirmava sua versão.

Apesar da certeza de Mário Melo (sempre polêmico), não se pode garantir nem mesmo que a goiabeira seja nativa das Américas e, se assim o for, o nome goiaba parece ter sido importado na América Central.

Consta que foi Gabriel Soares de Souza quem fez o mais remoto registro do termo, em seu Tratado Descritivo do Brasil, datado de 1587, e quatro décadas depois, um outro cronista de época, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, de 1627, daria a primeira explicação para o topônimo pernambucano Gueena, como sendo “ancoradouro em um vale”, do tupi “gua yai”.

Para emaranhar o debate, Teodoro Sampaio, grande especialista em línguas brasílicas, comenta em seu Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, de 1922, que o nome talvez derive de uma planta local ou que provenha de “gueena”, gerúndio de “gueê”, cuja tradução seria algo como “vomitando”.

Neste ponto, Mário Melo retorna à cena evocando um certo Benjamim Solari, que teria proposto a tradução “terra onde abundam as águas”, versão até hoje bastante aceita entre os goianenses. Ao que tudo indica, porém, teria agido por ironia, posto que Solari era um artista argentino, que tinha fama de profeta, ouvindo vozes do além e tendo visões. E como se não bastasse, lucubrou que Goiana poderia significar, quem sabe, “flor da cana” (note-se que Mário Melo concedeu nomes oficiais a muitos municípios pernambucanos, usando termos do tupi, no período em que chefiou a Comissão de Reforma Administrativa do Estado, entre 1938 e 1942).

Para acalorar o debate, vamos aqui levantar duas novas hipóteses. A primeira, de que o termo provenha do hebraico “gói ani”, no plural “goim aniim”, que significa “gentio pobre”. Sabe-se que, no século 16, havia em Tejucupapo e seus arredores uma comunidade cristã-nova judaizante, inclusive com sua pequena esnoga, no partido de cana de Diogo de Paiva. Destarte, os índios seriam este “gentio pobre”, de hábitos primitivos frente aos padrões europeus.

A segunda hipótese é a de que o nome tenha sido dado por franceses que por ali faziam contrabando de pau-brasil deste os primórdios da colonização. O termo teria origem no gascão “Guyenne”, como era conhecida a região da Aquitânia Francesa, em sua porção atlântica, durante o apogeu náutico de suas principais cidades.

Enquanto o debate continua por aqui…, lá na Guiana (Francesa), país limítrofe ao norte do Brasil, chegou-se a um consenso, por mais esdrúxulo que possa ser: o termo “Guiana” vem de idioma local e quer dizer “aquilo que não tem nome”. E ponto final.

(*) Este artigo é uma homenagem ao centenário Instituto Histórico de Goiana e seus sócios, na pessoa do presidente Harlan Gadelha Filho.

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Jornal dos Commercio, 05.02.2016

TOTONHO E ZEZÉ

Jacques Ribemboim, economista ambiental e engenheiro de petróleo

Eram dois irmãos curumins a correrem soltos pelas matas, onde voavam papagaios e soprava a brisa fresca de paranã. Chegaram os portugueses e os batizaram com nomes de santos, Antônio e José. Com o tempo, os meninos se tornaram guerreiros fortes e lustrosos. Vieram os holandeses e os subjugaram à força dos canhões. Tornaram-se calvinistas, mas se ouvia dizer que Antônio flertava com o judaísmo e José simpatizava com religiões africanas. Tendo ido embora os batavos, os dois se decidiram pelo ecletismo de todas as cores e etnias.

Estamos falando dos bairros de Santo Antônio e São José, de importância fulcral no desenvolvimento do Recife, territórios de luta, heroísmo e fé, núcleo duro da mais autêntica pernambucanidade.

Acerca deles, foi realizado o projeto “Levantamento do Patrimônio Imaterial dos Bairros de Santo Antônio e São José”, cujo relatório final será transformado em livro (Funcultura/PE). A grandiosidade histórica e afetiva destes lugares impressionou até mesmo a experiente equipe multidisciplinar que concluiu o estudo.

No começo do século 17, quase nada havia por ali, apenas umas poucas plantações de cana, alguns pomares e casebres em torno do convento franciscano. Faziam navios na então chamada “Ilha de Antonio Vaz”, escolhida por Nassau para ser a sua Mauritzstaad, erguida em moldes europeus, com palácios, jardins, canais, ruas planejadas, cercada de muros e fortificações.

Após a expulsão, as terras foram gradativamente ocupadas para fins residenciais e comerciais, assumindo, os dois bairros, distintas vocações. Santo Antônio será o preferido das famílias abastadas, para onde fluirá o comércio elegante e onde se instalarão as atividades administrativas e jurisdicionais da província, os escritórios, o teatro. São José, por sua vez, parece se destinar aos menos endinheirados, ao comércio popular, aos armazéns de miudezas, à religiosidade, aos folguedos, a moradias de escravos alforriados, imigrantes e gente do interior.

Hoje, os transeuntes apressados não se apercebem deste passado. Santo Antônio e São José não se resumem ao desfile do Galo ou para onde se vai reconhecer firma em cartório ou comprar remédio caseiro. Há muito de imaterialidade em suas ruas e calçadas, em seus recantos e recônditos. Na Campina do Taborda, os holandeses entregaram as chaves da cidade após a rendição. Junto ao Forte das Cinco Pontas, Frei Caneca foi fuzilado sob comoção do Recife, enquanto na Praça da República (antigo Largo do Erário) eram supliciados outros mártires de 17 e 24. Na Pracinha do Diário, atualmente palco folias e fanfarras, havia a famigerada “polé”, instrumento de tortura para punir escravos e criminosos comuns.

E são muitas, também, as lembranças boas de anos nem tão remotos. Bondes, charretes, teatros, hotéis, festas. Na lâmina d´água do Estelita, amerissavam os primeiros aviões que chegavam ao Recife. Na Estação Central, trens pioneiros levavam abraços da capital e do interior. E o Mercado de São José, verdadeiro bálsamo para os que o frequentavam em áureos tempos. E ainda hoje, nos dias atuais, quantas sensações, cores, cheiros, sabores e sons naquelas redondezas!

Há muito por contar sobre estes bairros irmãos, os nossos Totonho e Zezé. Nascidos índios, batizados portugueses, amamentados por mãe negra, sequestrados por holandeses e finalmente declarados livres pelos pernambucanos. Saberão, as gerações atuais e futuras, guardá-los de novos perigos?

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Diário de Pernambuco 16/01/2016

ALLEGRO MA NON TROPPO

Jacques Ribemboim, economista ambiental e engenheiro de petróleo.

Com relação às olimpíadas que se aproximam, no Rio de Janeiro, o evento constitui uma oportunidade única para que a cidade se torne mais justa, limpa e segura. Beleza não lhe falta. Sempre considerei o Rio entre as mais bonitas do planeta, imbatível no quesito paisagem natural.

Não me esqueço das aulas de educação física na quadra de cimento da UFPE, anos setenta. A gente ia fazer ginástica, todo mundo de short e camiseta branca com o emblema da universidade no peito, onde se lia virtus impavida (virtude sem medo) e, nas costas, outra citação em latim, mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são).

O exercício físico e a prática esportiva complementam um espírito saudável, disso ninguém duvida, mas confesso certa predileção pelo exercício intelectual, pela leitura, o aprendizado, a lucubração. Acho que nós, judeus, talvez sejamos assim, gostamos de esportes, mas adoramos os estudos. Freud afirmava isso abertamente. A opção pelo intelecto em lugar do corpo é também defendida pelo amigo e escritor Ronaldo Correia de Brito, em artigo da Revista Continente, ele mesmo um provável descendente de israelitas do Ceará.

A esperança é que aconteça ali o que aconteceu a Barcelona, em 92, quando a capital catalã se tornou um centro mundial de referência para o desenvolvimento. Deixaríamos de ter um “Rio-Babilônia” para termos um “Rio-Barcelona” (Rio Babilônia era o nome de um filme nacional de 1982 denunciando o cinismo social da Cidade Maravilhosa).

Oportunidade, também, para o crescimento esportivo do país, como um todo. Em nosso retrospecto olímpico, afora todas as deficiências, há um aspecto positivo a ressaltar: a performance brasileira nas modalidades jogadas em equipe (voleibol, futebol e basquete). De maneira geral, contudo, a mídia e o governo tendem a sobre-explorar nossos resultados em competições internacionais.

Em um artigo que escrevi acerca das Olimpíadas de 2012, atentava para os riscos de que as estatísticas divulgadas por meio de um “quadro de medalhas” pudessem embaralhar os créditos, levando o público a conclusões precipitadas, inclusive acerca da existência de supernações esportivas, como os Estados Unidos e a China, primeiro e segundo no ranking oficial das competições de Londres.

Se levássemos em conta um “quadro de medalhas per capita”, estes países ocupariam modestos quinquagésimo primeiro e septuagésimo terceiro lugares, respectivamente. Aliás, se a classificação fosse ordenada por este critério, os verdadeiros campeões seriam Granada, Jamaica, Trinidad e Tobago, Bahamas, por sinal, todos de maioria negra. E neste caso, o Brasil despencaria do vigésimo segundo para sexagésimo nono, atrás da nossa arquirrival esportiva, a Argentina (pois, conquistamos apenas uma medalha para cada grupo de nove milhões de habitantes). Israel, então, coitado, terra de judeus, não ganhou um bronze sequer, embora detenha onze prêmios Nobel!

Em um país onde todo mundo já está farto de ouvir tanta notícia ruim sobre zika, chikungunya, corrupção e desgovernos, nunca é de menos redobrar cuidados para que a emoção do esporte não desvie as atenções dos grandes problemas nacionais e que o excesso de ufanismo não varra para debaixo do tapete nossas mazelas mais esquizoides. Em ano eleitoral e olímpico, alerta total para não retroceder ao pão e circo. Allegro, si, ma non troppo.

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Artigo publicado no Diário de Pernambuco de 30/12/2015:

O GOSTO AMARGO DA IMPRECAUÇÃO

Por Jacques Ribemboim, economista e engenheiro de petróleo.

Agora é fácil falar, mas no auge da popularidade do presidente Lula eram poucos os que se atreviam a criticar sua política econômica, sobretudo no biênio 2009/2010, anos que precederam a eleição de Dilma Rousseff. Os políticos de oposição tinham medo de perder votos e os economistas de plantão estavam ocupados em ganhar dinheiro com consultorias ao governo. A turma gostava mesmo era de aplaudir e jogar confete.

Para eleger sua candidata, o presidente implementou uma política de ampliação dos gastos públicos e de incentivo ao consumo. O paraíso era aqui: crédito fácil para que todos comprassem o que quisessem. O mundo mergulhava em crise e o Brasil adotava uma receita fácil para problemas complexos. Estava claro que aquele crescimento não era sustentável, ancorado em medidas paliativas de curto prazo, sem que houvesse mudanças substanciais na estrutura produtiva do país.

Passadas as eleições de 2010, a pirotecnia mostrou-se fumaça e a economia passou a andar de lado. As famílias se viram endividadas, a qualidade ambiental nas cidades se deteriorou e a inflação retomou seu fôlego. Mas o pior estaria por vir e a recessão se instala hoje com força total. As previsões mais otimistas são para uma decréscimo de 3,6% do PIB.

Em palestra recente, o economista Maurício Romão cita a queda de popularidade da presidente Dilma e do Partido dos Trabalhadores. Segundo as pesquisas, os índices são declinantes em todas as faixas de renda, inclusive entre os assalariados. Curiosamente, o declínio é ainda maior entre as famílias da chamada “nova classe média”, que percebem entre 2 e 5 salários mínimos, justamente aquelas que teriam sido as mais beneficiadas pela política expansionista da era Lula.

O aparente contrassenso pode ser explicado à luz da teoria prospectiva, de Amos Tversky e Daniel Kahneman, da chamada “escola psicológica da economia”. O ser humano prefere “não ganhar” a “ganhar e depois perder o que ganhou”. Em outras palavras, possuímos uma intrínseca aversão a perdas e seríamos mais felizes sem provar do consumo efêmero.

Os ciclos econômicos têm este inconveniente: são ineficientes, pois reduzem o bem-estar a médio e longo prazo; e são injustos, na medida em que penalizam determinadas faixas etárias. Por isso, mostra-se indispensável que o conceito de sustentabilidade seja de fato incorporado às políticas públicas de bem-estar e deixe de ser usado como mera retórica.

Os erros de Lula nos dois últimos anos de seu segundo mandato estão na raiz do atual quadro caótico do país. Ali foram obliteradas nossas chances de sucesso rumo ao desenvolvimento. A presidente Dilma, a inapetência do setor externo e os escândalos de corrupção desempenham quando muito um papel periférico no espectro das responsabilidades.

O que acontece é que a percepção pública quanto aos fenômenos macroeconômicos é diferida no tempo e a população, em geral, não identifica claramente o momento exato da derrapagem. O troca-troca de ministro da fazenda e a histeria do Congresso não adiantarão muita coisa, pois o estrago foi feito lá atrás. O Brasil é hoje um navio em rota de colisão e um bom timoneiro conseguirá no máximo aliviar o choque.

E se em um passado recente vivenciamos a euforia da gastança fátua, haveremos agora de arcar com os custos da imprecaução. Precisaremos ser fortes e pacientes. E aprender com as experiências do passado.

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Artigo publicado no JC de 11.04.2015:

A MAROLINHA VIROU TSUNAMI

Jacques Ribemboim, Engenheiro de petróleo e economista ambiental.

Em 2010, no ápice do consumismo que contagiava o país e silenciava a crítica econômica e política, escrevi uma série de artigos sobre os riscos daquele crescimento insustentável, alicerçado em estímulos fiscais e creditícios de curto prazo que não induziam o investimento. Para mim, estava claro que uma mera antecipação da compra de duráveis mediante endividamento das famílias não era a solução para combater a crise internacional e obter o desenvolvimento.

Eram tempos de euforia e minha voz dissonava entre colegas de profissão, seduzidos pelo modelo adotado por Guido Mantega. Em meio à recessão global, o Brasil parecia uma ilha de prosperidade.

O presidente Lula, às vésperas do sufrágio presidencial que lhe decidiria a sucessão, optou por lançar um “pacote de bondades” reunindo o melhor dos mundos: redução dos juros, ampliação do crédito, alívio da carga tributária, manutenção dos baixos preços de combustíveis e eletricidade, abertura de concursos, aumento salarial e expansão de obras públicas, algumas delas, de retorno incerto e sem perspectivas de finalização. Isso sem contar com o uso político da Petrobras e do BNDES na distribuição de favores para o setor industrial. Como resultado, a crise internacional chegou ao país como se fosse uma “marolinha”.

O povo aplaudiu, o presidente elegeu sua sucessora e atingiu índices de popularidade de fazer inveja a ditador africano. Mas algo não estava indo bem e, passados alguns meses, a realidade se impôs. O crescimento do PIB – que no biênio anterior à eleição de Dilma Rousseff havia sido de 7,1% contra 4,3% no resto do mundo – passou a ser, no biênio posterior à eleição, 3,6% contra 6,8% no resto do mundo.

Hoje, comprovam-se os efeitos daquela política contraditória. Nos dois últimos anos de mandatos (2009 e 2010), o presidente Lula simplesmente implodiu os fundamentos macroeconômicos do país. E enquanto lá fora os países voltam a crescer, internamente, o Brasil mergulha em severa crise.

As pessoas finalmente despertam para a gravidade do problema. Ocorre que a percepção popular é assíncrona em relação aos ciclos econômicos e, na busca por responsáveis, atribuem a culpa à presidente Dilma, que em vã tentativa de salvar a embarcação, nomeia um chicago-boy (quem diria?) para timoneiro.

Infelizmente, o estrago já está feito e por um longo período haveremos de conviver com pressões inflacionárias, elevação dos juros, aumento da carga tributária, deterioração das contas públicas, tarifaço, depreciação da moeda nacional, perda de credibilidade no exterior, desemprego, estagnação econômica, fuga de capitais, poluição, congestionamentos, bolha imobiliária e concentração de renda.

Parece que não aprendemos com os erros do passado. A economia é um sistema de vasos comunicantes, não existem soluções mágicas. Os excessos de um momento são sempre compensados adiante. Encilhamento, valorização do café, populismo, nacional-desenvolvimentismo, milagre econômico, todos resultaram em futuros desperdiçados.

Aqui, no Brasil, depois da bonança, vem sempre a tempestade. Depois da marolinha, vem o tsunami.

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HOMENAGEM A HUMBERTO FRANÇA:

VII CONGRESSO DO FESTLATINO – MOVIMENTO DE LÍNGUAS NEOLATINAS

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO, 22 A 24 de outubro de 2014, Recife.

programa do festlatino em jpeg

PARQUE HISTÓRICO ESTADUAL DA CAMPINA DO TABORDA

Este é o desenho do projeto do Parque. Após a figura, estão três artigos que expõem a ideia de criação deste Parque. Observar no desenho a indicação de uma “lagoa interna”, com canal de acesso, para entrada de pequenas embarcações de pescadores e catadores de moluscos e crustáceos, onde pudessem processar e vender seus produtos (mariscos, peixes, caranguejos).

parque histórico estadual da Campina do Taborda

ACERCA DO CAIS JOSÉ ESTELITA

Jacques Ribemboim, Economista ambiental, Presidente da ONG Civitate.

Há horas em que calar é mentir. O provérbio basco tem razão. E na questão do Cais José Estelita está em jogo não somente a história, a cultura, a paisagem, mas a dignidade pernambucana. Ainda há tempo. É preciso agir com firmeza para se evitar a perda irreversível deste espaço tão precioso.

Vamos recapitular o problema. Em 2008, a área foi arrematada em leilão pela quantia de cinquenta e cinco milhões de reais, pagos à antiga proprietária, a Rede Ferroviária Federal. Os novos donos, que compõem um consórcio do ramo imobiliário, propuseram o projeto “Novo Recife”, um conglomerado de doze arranha-céus, entre edifícios de apartamentos, residenciais de luxo, escritórios e um hotel. Tudo, talvez, dentro da legalidade, mas totalmente fora do contexto de preservação histórica, paisagística ou de desenvolvimento socioambiental.

Tenho me manifestado publicamente contra o projeto, a começar do nome. Este não é, em absoluto, o “novo” que desejamos para nossa cidade. O que há de especial em um conglomerado de torres envidraçadas que agridem a singeleza do velho bairro de São José? O que de belo pode restar na contemplação daquela paisagem bucólica, palco de tantos episódios de nosso passado?

Chega de cinismo, basta de promiscuidade! O povo não merece ser regido por aqueles que financiam campanhas eleitorais. O terreno do José Estelita precisa ser desapropriado e convertido em um parque estadual de referência, antes que seja tarde. Aqui não se apregoa insegurança jurídica ou alteração das regras do jogo. Os atuais donos devem ser indenizados pelos custos incorridos. Afinal, o que vem a ser 55 milhões de reais, quando foram gastos 700 milhões em um estádio de futebol para a Copa do Mundo?

Há horas em que calar é ferir. Se a população vier a perder o Cais José Estelita, terá sido por culpa do poder público. A ele compete defender o interesse comum. O consórcio arrematante é mero cúmplice deste crime de lesa-cidadania: como qualquer grupo privado, busca tão-somente maximizar seus lucros. E o fará, caso não seja refreado pela sociedade organizada ou pelo Estado diligente. Portanto, que se façam escutar o clamor da juventude e o grito de tantos artistas e intelectuais.

Naquelas terras, conquistadas aos índios, conquistadas aos portugueses, conquistadas aos holandeses, nasceu um Pernambuco eterno e pujante. De todos e para todos. Naquelas redondezas deu-se a rendição dos holandeses. Naquele solo fuzilaram Frei Caneca. A estes mártires, devemos satisfação.

Há horas em que calar é morrer.

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PARQUE HISTÓRICO ESTADUAL DA CAMPINA DO TABORDA

Por Jacques Ribemboim, Economista ambiental, Presidente da ONG Civitate.

Em 1654, na Campina do Taborda, reúnem-se as tropas holandesas e pernambucanas. O general invasor traz nas mãos as chaves da cidade e as entrega ao marechal-de-campo Francisco Barreto de Menezes. Está selada a rendição.

Cento e setenta e um anos depois, um padre carmelita é condenado à forca. Os algozes de ofício se recusam a executar o Frei Caneca. Rapidamente, a pena é comutada para fuzilamento e, sob os tiros do pelotão, jaz inerte o líder da Confederação do Equador.

Passa o tempo. Trinta anos. Naquele lugar, são instalados trilhos de ferrovias. A novidade à época! Por trens chega o açúcar produzido nos engenhos para embarque rumo à Europa. Por trens as pessoas vão e vêm em seus afazeres cotidianos.

Decorrem outros tantos: setenta anos. A cidade agora está em rebuliço. Ao Cais José Estelita afluem milhares de pessoas para ver os aviões amerissarem. Em frente, nas águas plácidas do estuário, está o aeroporto de Pernambuco. Ali permanecerá até os anos quarenta.

Trem acima, trem abaixo. Barcaça vai, barcaça vem. Avião decola, avião pousa. Pouco a pouco o Cais José Estelita foi perdendo estas funções. Chegam os nossos dias. O velho cais se torna um mero corredor de passagem para carros apressados. Parece um cemitério abandonado. O poder público, insensível ao passado, dá de ombros quando se questiona o futuro do velho rincão.

Um consórcio do ramo imobiliário o adquire. O preço? Cinquenta e cinco milhões de reais. Quase nada, em comparação aos gastos para erguer a Arena da Copa, em torno de setecentos milhões.

Ah! Para as arquibancadas festivas do futebol havia interesses concentrados. Os mesmos que querem construir o “Novo Recife”: espigões de luxo rompendo a paisagem, subjugando o velho bairro. Parafraseando o Poeta do Azul, são doze torres erguidas, duzentos homens expulsos, doze mil desejos presos, duzentos mil sonhos frustrados.

Esquecem que Pernambuco é forte e não se curva. O que começou com um brado de jovens valentes, hoje são milhares de vozes que se erguem contra a truculência do capital e a leniência dos governantes.

Um parque público. Um parque histórico estadual da Campina do Taborda. Com um memorial ao Frei Caneca, uma escola, ciclovias, brinquedos para a criançada. E árvores, muitas árvores.

A aí, desfraldar bandeiras?

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UMA HOMENAGEM AOS CATADORES DAS MARÉS

Jacques Ribemboim, Economista ambiental, Presidente da ONG Civitate.

Em alguns artigos anteriores, propusemos a urgente desapropriação do terreno localizado no Cais José Estelita, onde um grupo de empresas de construção civil intenciona construir o “Novo Recife”.

Para o povo pernambucano, vale mais preservar a área para uso socialmente integrador, integrando-a em um Parque Histórico Estadual, talvez com o nome de “Campina do Taborda”, em homenagem ao lugar onde aconteceu a rendição holandesa de 1654. Naqueles arredores, aconteceu o fuzilamento do Frei Caneca, expressão máxima da nossa história. Ainda não lhe dedicamos um Memorial. A hora é essa.

O perímetro do Parque seria, portanto, composto da linha demarcatória do terreno em disputa, acrescido do calçamento e margem ribeirinha ao longo do cais e, ainda, o Forte e a Praça das Cinco Pontas (com a destruição do famigerado viaduto que leva este nome), a área de embarque do catamarã, a futura interligação da Avenida Dantas Barreto, a Matriz de São José, a Praça Frei Caneca, os jardins sob o Viaduto Capitão Temudo, fazendo limite com o Cabanga Iate Clube.

Além de pistas, brinquedos infantis, arvoredos, jardins e outros itens obrigatórios, o Parque prestaria homenagem aos heróis pernambucanos, não somente àqueles que se destacaram na liderança de tropas, mas também ao heróis anônimos, gente simples, que por meio de seu labor diário, contribuíram para a construção da nossa identidade. Refiro-me aos homens e mulheres que vivem do mangue, dos rios, catadores de moluscos e crustáceos que até hoje estão presentes no estuário ali em frente. Não seria difícil escavar uma lagoa interna e um canal de acesso para pequenas embarcações, de modo que pudessem comercializar seus produtos da cata artesanal diretamente com o público consumidor, sejam itens frescos, sejam preparos da culinária litorânea.

Isto, sim, seria um projeto integrador. A Região Metropolitana do Recife teve sua gênese e seu desenvolvimento assentados no ritmo das marés. O mangue está tão arraigado em nossa cultura, que se fala no caranguejo como símbolo da cidade.

Desapropriar a área não significa romper ordenamento jurídico nem as regras do jogo. Está dentro da legalidade, sendo indenizando os proprietários do terreno, ressarcindo-lhes as despesas incorridas.

E em algum lugar do futuro seremos sempre lembrados como aqueles que um dia souberam optar por preservar a história e valorizar a gente simples, construindo um grande parque, em detrimento de uma modernidade arrogante que com muros excludentes muito pouco contribuem para o desenvolvimento de Pernambuco.

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ABELARDO DA HORA

(Por Jacques Ribemboim)

O pequeno Abelardo, filho de Seu Cazuza, cresceu entre os bananais da Usina Tiúma, município de São Lourenço da Mata, lugar onde nascu.

Ainda criança, mudou-se com a família para o Recife, passando a morar no bairro da Iputinga e, em seguida, no bairro da Boa Vista, ao final da década de 1930, fixando residência à Rua Visconde de Goiana, 241.

A família, contudo, não se demora neste endereço, mudando-se para a Rua dos Coelhos, 241, coincidentemente, no mesmo número do endereço anterior. Esta casa ficava na transição entre o bairro dos Coelhos e o da Boa Vista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA“Morávamos em frente à casa do Padre Venâncio. Ali perto, na Rua dos Prazeres, moravam Paulo Cavalcanti e Nélson Ferreira, nomes famosos da cena cultural pernambucana. Meus pais matricularam os filhos na Escola Técnica Profissional Masculina, mais tarde denominada Colégio Técnico Agamenon Magalhães. Eu e meu irmão, Luciano, fazíamos o curso de arte decorativa e nosso professor de pintura era Álvaro Amorim, que depois me convidou para ingressar na Escola de Belas Artes do Recife”.

O espírito irrequieto do futuro escultor o faria iniciar uma vida de ativismo cultural já a partir daquele momento, organizando junto com vizinhos a “Sociedade Cultural Estêvão Cruz”, em homenagem ao historiador perito em literatura universal.

Seus pais valorizavam muito o trabalho braçal, ao que entendiam como uma complementaridade à vida intelectual e foi com indisfarçada alegria que receberam a notícia de que o filho havia recebido uma bolsa para estudar escultura na Escola de Belas Artes.

O professor era Casimiro Correia, que tinha uma empresa de estucar, e logo o rapaz foi contratado como estagiário para ajudar nas obras do Edifício Almare, na Avenida Guararapes, onde se lembra de ter feito seus primeiros trabalhos de modelagem em gesso.

“Na Escola de Belas Artes, meu professor de escultura era Casimiro Correia, cego de um olho, e que é o autor das estátuas de santos que estão na fachada da Igreja da Soledade”.

Em 1941, quando estava prestes a encerrar o curso da Escola de Belas Artes, recebeu um convite para trabalhar na fábrica de cerâmica do Engenho São João, pertencente aos Brennand, coincidentemente, o mesmo local onde seu pai havia sido empregado por muitos anos.

“Quando eu estava terminando o curso, fui com a turma de alunos para realizar trabalho de campo no Engenho São João, levado pelo professor Casimiro, o qual havia nos orientado para que esculpíssemos trabalhadores comuns. Lá no açude, chegou Seu Ricardo Brennand, com seu Buick importado e perguntou se eu queria vender o retrato… Eu assinei, e dei-lhe de presente.”

O fato de ter ido trabalhar no Engenho São João permitiu-lhe iniciar uma longa amizade com o jovem Francisco Brennand a quem deu aulas de pintura e escultura, influenciando o renomado artista em sua decisão de desistir de cursar a Faculdade de Direito.

No começo de 1946, após alguns anos trabalhando na fábrica, inclusive morando com os Brennand na casa-grande, Abelardo se transfere para o Rio de Janeiro, onde se tornou amigo do também pernambucano Abelardo Rodrigues. Mas, da capital federal, voltaria ao Recife decepcionado com a falta de incentivos à cultura do governo de Eurico Gaspar Dutra, tornando-se membro ativo do Partido Comunista.

Em 1948, durante a 1ª Exposição de Arte na Associação dos Empregados do Comércio, que ficava na Rua da Imperatriz, “perto da livraria de Seu Jacó Berenstein”, fundou a Sociedade de Arte Moderna do Recife – SAMR, junto com grandes nomes da cena artística da cidade, tais como Hélio Feijó (que foi o primeiro presidente), Cloves Melo, Carlos Moreira, Carlos Pena Filho, dentre outros. A livraria de Seu Jacó a que se refere é a Livraria Imperatriz, em funcionamento até os dias atuais. Abelardo se exalta de satisfação quando discorre sobre o local:

“Era um verdadeiro núcleo de convergência dos intelectuais e artistas, onde os proprietários conseguiam literatura clandestina, livros em inglês, espanhol e francês sobre marxismo. Seu Jacó morava com a família na Rua Velha”.

Na Sociedade de Arte Moderna, Abelardo da Hora esforçou-se para estabelecer cursos gratuitos no Liceu de Artes e Ofícios, por onde passaram alunos como Samico, Wilton de Souza, Wellington Virgolino, Campelo Neto etc.

Mais tarde, este grupo funda o “Atelier Coletivo”, o qual faria história no Recife. A primeira sede do Atelier foi na Rua da Soledade 57, na casa que pertencia a um tio de Samico. Aqueles tempos alegres, mas de curtose financeira, Abelardo lembra com nostalgia:

“Como a gente não conseguia pagar o aluguel, o tio uma vez pegou o sobrinho na rua e deu-lhe o maior carão, no meio de todo mundo!”

Após o fechamento do Atelier, em 1958, passa a integrar, em 1958, passa a integrar o governo municipal, sob o comando do então prefeito Miguel Arraes, e participa da concepção do Movimento de Cultura Popular. Nos anos sessenta e setenta é preso diversas vezes por pertencer ao Partido Comunista.

Abelardo é uma figura emblemática e central na evolução da cena artística pernambucana. Deixou um legado extraordinário de grandes obras.

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HAMAS E ISRAEL (publicado no Jornal do Commercio, Recife, 26/08/2014)

Jacques Ribemboim – Diretor da Synagoga Israelita do Recife

Se há um consenso sobre o atual conflito no Oriente Médio é o de que Israel venceu a guerra militar, mas perdeu a guerra da propaganda. Conseguiu destruir os tuneis que serviam de passagem aos terroristas, mas conquistou contra si uma parte considerável da opinião pública mundial. Em momentos de tragédia, com tantas mortes de civis e fotos chocantes circulando na internet, é natural que a razão se curve perante a emoção.

Contudo, é necessário esclarecer alguns aspectos reveladores. O alto número de civis vitimados é antes o resultado da estratégia do Hamas, de usar sua população como escudo humano, que dos tiros israelenses, balizados ao máximo para evitar a morte de inocentes.

O Hamas é um grupo fundamentalista islâmico que governa Gaza desde 2006. Sua carta estatutária apregoa a destruição de Israel. Nos últimos meses, lançou centenas de foguetes contra o solo inimigo que só não causaram mais vítimas por causa da defesa antiaérea do Estado Judeu.

Neste cenário, emerge uma curiosa assimetria de forças e moralidades. De um lado, o Hamas, que não esconde sua missão de aniquilar Israel, mesmo que para isso tenha que sacrificar sua população civil. De outro lado, Israel, com seu reconhecido poderio militar, disposto a defender seus moradores custe o que custar. Em outras palavras, Israel tem o poder de destruir Gaza, mas não tem a intenção, e o Hamas tem a intenção de destruir Israel, mas não tem o poder.

Golda Meir, primeira-ministra durante a Guerra do Yom Kippur, repetia que os árabes seriam vencedores no dia em que amassem suas crianças mais do que odeiam Israel. Não se referia às mães palestinas, certamente, mas às famigeradas cúpulas dirigentes, como a do Hamas, que não hesitam em derramar sangue palestino em nome da intransigência e do rancor.

Se o mundo deseja evitar tragédias maiores, precisa ser firme e uníssono em condenar os objetivos e as táticas do Hamas. Não obstante, muitos condenam Israel unilateralmente, como que aprisionados a velhas ideologias do passado, inadequadas ao mundo contemporâneo. Existem até os que – menos por ignorância e mais por má fé – acusam o país de cometer genocídio. Nada de mais ferino contra um povo que sofreu na pele os horrores do Holocausto. Ali, pelas mãos nazistas, seis milhões de judeus foram eliminados por serem considerados “inferiores” e “indesejáveis”. Isto nada tem a ver com a guerra contra o Hamas. Em Israel, as crianças aprendem na escola a respeitar os árabes e ninguém comemora quando há vítimas inocentes. A maioria da população, inclusive, deseja conviver pacificamente com um (ou mais) Estado(s) Palestino(s).

Portanto, na guerra da propaganda, é bom não se deixar enganar com argumentos falaciosos, preconceituosos ou simplificadores. O Estado de Israel é um país democrático que deveria servir de exemplo para o mundo, com uma população instruída, laboriosa e igualitária. Talvez por isso sofra da “síndrome do bom-moço”, isto é, independentemente de seus erros e acertos, será sempre o lado mais cobrado.

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ARTIGO PUBLICADO NO DIÁRIO DE PERNAMBUCO – RECIFE, 30/05/2014.

BOA VISTA DAS ARTES PLÁSTICAS

Jacques Ribemboim – Membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano

Entre as décadas de trinta e setenta, o bairro da Boa Vista foi um celeiro de artistas e intelectuais. Estes cinquenta anos da história da cidade impressionam pelo ritmo das transformações e pela rapidez com que brotaram tantos pinceis e cinzeis, surgidos quase do nada, em um Pernambuco adormecido para as artes desde os tempos de Nassau.

É bem verdade que em todo o mundo ocorriam mudanças profundas. Conflitos europeus arrasadores fizeram emergir uma sociedade nova, urbano-industrial, voltada ao consumo, fadada ao rápido crescimento econômico e demográfico.

O Recife não se fazia diferente. Aqui, também, as velhas oligarquias rurais cediam espaço à classe média. E se, antes, a arte estava restrita aos círculos aristocráticos e às telas assinadas por estrangeiros, era a classe média, agora, que se descobria capaz de produzir e consumir arte.

Com o crescimento populacional e a chegada de milhares de famílias do interior e do exterior, os tradicionais bairros de Santo Antônio e São José se viram esgotados em sua capacidade de prover espaço para todos. Era preciso ocupar a rive gauche do Capibaribe. Deste modo, imigrantes recém-chegados – italianos, portugueses, árabes, judeus, uma multidão de nacionalidades e etnias – passaram a conviver lado a lado com brasileiros natos nas ruas e becos da Boa Vista.

Esta proximidade física entre culturas tão díspares confinadas em um único bairro teria sido decisiva para o aparecimento de uma arte típica, plural, idiossincrática e ao mesmo tempo universal, de cores, formas e conteúdos bastante diferenciados do que se produzia na Europa ou mesmo no sul do país.

É quando se promovem os primeiros salões dos chamados “independentes”, grupo formado por Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, Vicente do Rego Monteiro, Elezier Xavier, entre outros. Antes destes, somente o grande Telles Júnior houvera ensaiado algum tipo de linguagem autóctone, porém nunca inteiramente liberto do velho academicismo importado.

Antagonizam-se, então, modernistas e acadêmicos, cada qual proclamando sua estética. A Escola de Belas Artes, de 1932, pontifica com experimentados professores, dentre eles, Bibiano Silva, Álvaro Amorim, Balthazar da Câmara e Mário Túlio. Situada na Benfica, Paissandu, a Escola de Belas Artes era frequentada por muitos alunos que moravam na Boa Vista, de onde podiam vir caminhando.

Dentre estes, Abelardo da Hora, que, em 1952, criaria o famoso Ateliê Coletivo, juntamente com outros artistas. O Ateliê existiu na Rua da Soledade, passou pela Rua Velha e chegou à Rua da Matriz, até fechar as suas portas em 1958. A depender do ativismo laboral daquele grupo, o bairro da Boa Vista foi mais do que um berço das artes, uma autêntica incubadora de talentos.

Telles Júnior, Lula Cardozo e Hélio Feijó mantiveram ateliê na Rua da Imperatriz. Os irmãos Fédora, Joaquim e Vicente do Rego Monteiro moraram na Visconde de Suassuna, onde também residiu Murilo La Greca. O jovem João Câmara montou seu ateliê na Rua dos Prazeres (Coelhos). Francisco Brennand estudou no Colégio Osvaldo Cruz. E por aí vai: Rua Velha, Rua da Glória, Rua da Conceição, Rua da Alegria, Gervásio Pires, Soledade, Giriquiti, Lauro Villares, Ladjane Bandeira, Guita Charifker, Gilvan Samico, Elezier Xavier, Darel Valença, Ionaldo Cavalcanti, Wilton de Souza, Wellington Virgolino, José Cláudio, Marianne Peretti, Corbiniano Lins, Lêda Bancovsky, Bernardo Dimenstein, entre tantos outros.

Praticamente todos os grandes nomes da pintura pernambucana do século 20 moraram, estudaram ou trabalharam no bairro da Boa Vista. Um bairro especialíssimo.

(PS: O Projeto Boa Vista Berço das Artes Plásticas Pernambucanas é realizado pela ONG Civitate, Rua Velha 252, e recebe recursos do Funcultura/PE).

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ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA DE PERNAMBUCO (c/correções)

RECIFE, NOS DIAS 15 E 17/09/2013

 SOBRE ORIGEM DO NOME “PERNAMBUCO”

Jacques Ribemboim,

Membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.

Os livros escolares explicam o nome de Pernambuco como sendo de origem tupi, a partir da aglutinação dos termos para’nã, que quer dizer “rio grande” ou “mar”, e buka, “buraco”. Assim, Pernambuco seria um “buraco no mar”, referindo-se à abertura que existe nos arrecifes entre Olinda e o Recife (mais provável) ou ao canal de Santa Cruz, mais ao norte, próximo a Itamaracá (menos provável). Isso está documentado no poema épico de Bento Teixeira, A Prosopopeia, de 1601: “Em o meio desta obra alpestre e dura/ Uma bôca rompeu o Mar inchado/ Que na língua dos bárbaros escura/ Paranambuco, de todos é chamado./ De Parana que é Mar, Puca – rotura/ Feita com fúria dêsse Mar salgado/ Que sem no derivar cometer míngua/ Cova do Mar se chama em nossa língua”.

Uma segunda hipótese adviria também do tupi, paranãbuku, isto é, “rio comprido”, uma provável alusão ao rio das capivaras, o Capibaribe. Mapas primitivos do século XVI assinalam um tal “Rio Pernambuco” ao norte do Cabo de Santo Agostinho.

A par destas hipóteses, levantamos outra, a de que o nome provenha de Fernambouc, boca de Fernão, local onde embarcavam o pau-brasil pera a Europa, ou de Fernandbourg , isto é “fortaleza”, “vila” ou, simplesmente, “terras de Fernando”, lembrando aquele que foi o primeiro arrendatário do Brasil: Fernando de Noronha. Por corruptela, teríamos as variações Fernambuc, Pernambouc, Pernambuche tão frequentes na cartografia de época. Há, inclusive, um mapa-múndi holandês de 1626, Nova Totius Terrarum Orbis Geographica ad Hydrographica Tabula, que aponta uma curiosa denominação afrancesada, Fernambois, “madeira de Fernando”.

Fernando de Noronha (ou Fernão de Loroña) era um rico comerciante português de provável origem judaica, que adotara o cristianismo nos anos de conversão forçada ao final do século XV. Em 1502, liderando um consórcio de cristãos-novos, alugou as terras recém-descobertas, com interesse na exploração do pau-brasil (conhecida como “madeira-judaica”, tamanha era a presença de israelitas em seu comércio). Entre 1503 e 1515, o grupo renovou quatro vezes o contrato de arrendamento à Coroa Portuguesa. Há até quem afirme que se cogitava estabelecer uma rota de fuga para os judeus da Europa.

Assim, quando em 1535, Duarte Coelho chegou à capitania trazendo família e multidão de colonos, os índios já haviam travado conhecimento com o consórcio judaico, inclusive constituindo mão-de-obra para a derrubada das árvores. Não seria difícil imaginá-los, portanto, fazendo referência às terras ou ao porto de Dom Fernão, Fernambouc, Fernanbourg ou “Pernambuco”, sem conseguirem pronunciar a letra “F”, que não existe no alfabeto tupi. Com este epíteto identificavam o lugar para os que ali chegassem.

O novo donatário não deve ter gostado nem um pouco da ideia de dar às suas terras o nome de outro. A depender dele, a capitania (ou pelo menos sua sede administrativa), deveria ser chamada de Nova Lusitânia. Note-se que na carta de doação do rei de Portugal, Dom João III, o nome Pernambuco sequer é mencionado. E para piorar as coisas, Fernando tinha origem judaica. Portanto, em sendo o nome “Pernambuco” um fato consumado, tratariam de encontrar uma origem tupi para o mesmo.

No excelente livro Pernambucânia, de Homero Fonseca, sobre a toponímia pernambucana, lê-se: “A nomenclatura não é neutra. Carrega em si ideologias, paradigmas, conflitos. Desnuda relações de poder. Omite ou acentua episódios da construção de um país contraditório.  Exalta vencedores e esquece vencidos. Expõe preconceitos e abriga contestações”.

Se “Pernambuco” derivasse mesmo do tupi, deveria ser grafado “Paranabuca”, como aconteceu com os nomes dos estados do Pará, Paraíba, Paraná e inúmeras cidades brasileiras (Paranaguá, Paranapanema etc). Poucas vezes a deformação do original teria sido tão intensa (uma síncope do [a] central e duas metafonias, uma de [a] para [e], outra de [a] para [o]). O termo “para’nã” somente virou fernam nas terras de Fernão – seria demasiada coincidência?

Pesa, adicionalmente, em favor da nova hipótese, um mapa de Du Val, do ano de 1679, onde embora já apareçam “Olinde” e “Recif”, vê-se, mais adiante – onde hoje fica o estado de Tocantins – um lugar com o nome Tupinambouc, indicando a possibilidade de que o sufixo bouc tenha sido de fato usado para designar “terras de”, neste caso, “terras dos tupinambás”.

Para concluir, confesso que torço pela versão tupiniquim. Prefiro a tradução do “buraco do mar” à das “terras de Fernando”. É mais romântica, menos capitalista. Mais nativista, menos colonizadora. Mas investigação histórica não deve se ater a vontades. Proceda-se, então, ao debate.

PS: Para o linguista e filólogo Vicente Masip, da Universidade Federal de Pernambuco, a hipótese de o nome do nosso estado derivar de Fernandbourg é plausível, admitindo-se os metaplasmos de permuta de [f] por [p], e de [nd] por [m], neste caso, explicável pela fonética bilabial do [m], assim como a do [b] que lhe sucede, exceto pelo traço de nasalidade. A perda do [r] ao final da palavra se daria por elisão de som vibrante alveolar sonoro, dado que está ao final de sílaba e, em português informal, tende a desaparecer. Na visão do renomado linguista, a parte mais difícil de ser explicada seria a transformação do som [g], oclusivo velar sonoro, em [k], oclusivo velar surdo. Para o autor do artigo, contudo, este metaplasmo poderia ser explicado pelo sincretismo fonético do tupi com o francês, haja vista a presença maciça de franceses na costa pernambucana nos primeiros anos do descobrimento, os quais faziam aliança com os índios para a exploração do pau-brasil.

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Jornal do Commercio – Caderno Opinião JC – 23.03.2013

NINGUÉM PREVIU?

Jacques Ribemboim, economista ambiental, jacquesribemboim@oi.com.br

A imprensa tem noticiado o fraco desempenho da economia brasileira em 2012, com taxa de crescimento de 0,9% do PIB, ressaltando que ninguém previu desaceleração dessa magnitude, com resultados bem inferiores às metas e previsões do ministro Guido Mantega.

É verdade que, na euforia de dois anos atrás, a maioria dos especialistas apoiava as medidas do governo e apostava na sustentabilidade da política econômica. Até mesmo os líderes mundiais e a imprensa internacional elogiavam o presidente Lula à época – “he’s the man!”.

Mas houve vozes destoantes. Eu próprio assinei artigo neste JC em 18/09/2010, afirmando que “”contrariamente ao que se tem propagado, os fundamentos da economia brasileira não estão sólidos. Por mais que se apregoe o contrário, o crescimento não é sustentável. A recente explosão de consumo foi antes uma resposta a estímulos fiscais e creditícios de curto prazo, e não uma revolução na estrutura produtiva do país”.

Nunca pude compreender o porquê de tantos economistas terem endossado as previsões taumatúrgicas do ministro Mantega, que preferiu ignorar a crise internacional, interpondo ao país um ritmo de crescimento de 7,5% ao ano. A estratégia do governo estava errada, apostando perigosamente na expansão do consumo de duráveis por meio do endividamento das famílias. Isto afrontava a teoria neoclássica e invertia a lógica keynesiana (cuja proposta é de interveniência anticíclica, mas por estímulo ao investimento, não ao consumo).

Estava claro que as famílias não poderiam arcar em anos posteriores com o amortecimento das dívidas, o pagamento de juros e ainda por cima, a manutenção de um alto nível de consumo. Fatalmente rumaríamos a uma calmaria de acomodação ou, pior, ao encontro do famigerado binômio “estagnação-inflação” que tanto nos perturbou na década de 1980. A inflação e a perda de sustentabilidade são, em última análise, uma espécie de “solução malthusiana” para erros do passado, uma forma de acomodar os descompassos entre o crescimento da demanda e o da oferta. Assim como foi a derrocada da economia norte-americana em 2008. Nosso país já deveria ter aprendido com o crescimento acelerado dos anos 70 (o período do “milagre econômico”) que nocauteou a economia brasileira na década seguinte ( considerada como “a década perdida”).

Mas no Brasil, ano eleitoral é uma coisa, ano pós-eleitoral é outra. Nos meses que antecederam a última eleição presidencial, a gastança pública foi às alturas, deixando a conta para ser paga depois. Isto explica as medidas adotadas em 2009/2010, como expansão do crédito ao consumidor, redução do IPI, aumento do salário dos servidores, incremento de concursos públicos, congelamento de tarifas, abertura de frentes de trabalho em projetos que nunca terminam. Enquanto isso, os anos pós-eleitorais de 2011 e 2012 foram de difícil condução econômica, justamente procurando corrigir os exageros do biênio anterior.

Tudo isso se reflete na pressão inflacionária, endividamento público e privado, perda da qualidade ambiental e caos urbano. Os números são inequívocos: no biênio anterior à eleição de Dilma Rousseff, o Brasil cresceu 7,1% contra 4,3% do resto do mundo. No biênio posterior, cresceu 3,6% frente a 6,8% do resto do mundo.

A questão não é mais a de avaliar se a política econômica dos dois últimos anos da era Lula foi certa ou equivocada. A questão agora é entender como tantos erraram tanto em tão pouco tempo.

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FOLHA DE PERNAMBUCO – Domingo, 23.09.2012

MEDALHAS OLÍMPICAS

Jacques Ribemboim, economista

As estatísticas olímpicas divulgadas no quadro de medalhas encobrem aspectos interessantes sobre os países participantes e podem levar o público a conclusões precipitadas, inclusive acerca da existência de “supernações esportivas”, como seria o caso dos Estados Unidos, considerados os grandes vencedores, e o da China, segunda colocada no ranking.

Decerto, se levássemos em conta uma tabela dispondo as médias de medalhas por habitante, em lugar do total de medalhas obtidas por país, os norte-americanos ocupariam um modesto quinquagésimo-primeiro lugar e a China, um septuagésimo-terceiro. Aliás, neste tipo de ordenação pelas médias – que considero bem mais significativa – os verdadeiros campeões seriam Granada, Jamaica, Trinidade e Tobago, Bahamas, por sinal, todos de maioria negra.

De um modo geral, o tamanho da população e o volume do PIB são relevantes para conquistar medalhas, mas há também uma série de atributos específicos que interferem nos resultados. Variáveis culturais, sociais, ambientais, étnicas, políticas e até religiosas podem ser decisivas no direito de subir ao pódio.

Comecemos sob a ótica da economia. Entre os dez primeiros lugares, tão ostensivamente divulgados pelo Comitê Olímpico Internacional, estão nada menos que oito dentre as dez maiores economias do planeta. Apenas o Brasil e a Índia ficaram de fora, cedendo vez à Austrália e à Coreia do Sul. Em um quadro de medalhas per capita, o Brasil, que ficou em vigésimo-segundo na classificação oficial, cairia para o sexagésimo-nono, atrás da nossa arquirrival esportiva, a Argentina. Conquistamos tão-somente uma medalha para cada grupo de nove milhões de brasileiros.

Mas se não há motivos para ufanismo, também não há para desilusão. É bom lembrar que, das duzentas e treze delegações nacionais presentes ao torneio, mais da metade não conquistou sequer um bronze, incluindo países de alto desenvolvimento humano, como Áustria, Israel, Luxemburgo e Islândia (no caso de Israel, parece que se confirma a hipótese levantada por Freud, a de que os judeus preferem exercícios intelectuais a físicos).

E em meio a qualquer tipo de análise, desponta a permanência do fosso econômico entre negros e brancos. Estes continuam fortes em modalidades consideradas como sendo “de elite”, tais como equitação, esgrima, esportes náuticos. Aqueles, por sua vez, parecem imbatíveis em esportes populares, considerados “de livre acesso”, tais como corridas, saltos, lutas. A isso, destaque-se a fraca atuação dos ameríndios em praticamente todas as modalidades, explicando, em parte, o fracasso da América Latina como um todo.

Observam-se, ainda, algumas curiosas tendências. Países de clima temperado, por exemplo, conseguem mais medalhas do que seus pares tropicais. As ditaduras de esquerda alcançam melhores resultados (Cuba, Coreia do Norte e países recém-egressos da Cortina de Ferro). Por outro lado, países de línguas originadas do latim não obtêm muitas medalhas e, se a língua falada for o português, tanto pior (Portugal conseguiu uma prata, Angola e Moçambique, nada). Em nações com população acentuadamente religiosa, a taxa de sucesso é inversamente proporcional ao fervor dos credos. Ser país-sede ou ser inventor de modalidade olímpica confere grande vantagem. Pertencer a determinados grupos étnicos, culturais ou de tradição em determinado esporte pode fazer a diferença. E assim por diante.

Esta aí um bom exercício para estatísticos e econometristas: estabelecer uma regressão que possa prever quantas medalhas cada país irá obter no Rio de Janeiro em 2016. Poderão ganhar muito dinheiro nas bolsas de apostas e loterias inglesas. Afinal de contas, o homem individualmente é uma incógnita, mas na média, é uma certeza matemática. Seria isso também válido para suas medalhas?

FESTA DO PV NA BOA VISTA!

Apoteose do PV 43 no Mercado da Boa Vista!

No dia 3 de setembro, os militantes do PV se reuniram para um debate na sede da ONG Civitate, na Rua Velha. Depois, com orquestra de frevo, iniciaram uma caminhada pelas ruas até “invadir” o Mercado da Boa Vista com uma grande festa. Veja as fotos do evento.

E viva o PV-43!!!!

 

 

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SÃO JOÃO D’ALEGRIA!

Forró no meio da Rua da Alegria:
Paulo e Carmem Camelo, Jacques Ribemboim, Genoveva Tompson e Melchíades Montenegro (sentado)

Quem não conseguiu ir na festa de São João na rua da Alegria, bairro da Boa Vista, agende-se desde já para não perder no ano que vem!

A festa foi um sucesso, com mmuuiiita participação dos moradores.

Durante a brincadeira, que teve quadrilha, fogueira, arraial, foi também lançado o CD São João d’Alegria.

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JUDAÍSMO E QUESTÕES CONTROVERSAS

A palestra intitulada “QUESTÕES CONTROVERSAS DO JUDAÍSMO” contou com expressiva participação do público.

Um ambiente dos mais simpáticos, com a presença do presidente do IPPP, Walter Rosa Borges.

No debate, os temas mais polêmicos foram acerca das figuras do hassidismo e do folclore mítico judaico, o GOLEM, o DYBBUK e sobre a vida após morte conforme a tradição escrita (Torá).

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“NOS PASSOS DE BRANCA DIAS”, de Jacques Ribemboim e Semira Adler, Revista Morashá, São Paulo, Ano XIX, jan2012, clique em  Nos Passos de Branca Dias Revista Morasha dez 2011 fev 2012

“A POLÊMICA DA TERMOELÉTRICA” (Folha de Pernambuco, Recife, 20.12.2011)

Jacques Ribemboim, economista ambiental

O anúncio da instalação de uma termoelétrica a óleo em Suape fez surgir um amplo debate sobre os impactos ambientais de um projeto desta magnitude. Posições se acirraram, uns contra, alegando altos índices de emissões de carbono, outros a favor, destacando a necessidade de ampliação da oferta energética no país e mostrando as vantagens na geração de emprego e renda.

A polêmica deve ser comemorada. Denota que afinal atingimos certo grau de amadurecimento e conscientização na questão do meio ambiente. As pessoas já não aceitam a ideia do “crescimento a qualquer custo” ou de políticas que contemplem apenas uns poucos, privatizando lucros e coletivizando prejuízos. De outro lado, porém, corre-se o risco de radicalizar posições no sentido inverso, impondo à sociedade restrições demasiado altas.

De minha parte – refiro-me agora como economista ambiental – não defendo um extremo nem outro. Está claro que devemos perseguir tecnologias de baixo carbono, entendendo como um processo cujos resultados não podem ser obtidos instantaneamente.

Por exemplo, em um levantamento dos custos da geração elétrica para a pequena produção rural – que nos foi contratado pela Chesf – chegamos à conclusão de que um quilowatt-hora gerado a partir de células fotovoltaicas (energia solar) custa atualmente em torno de vinte e duas vezes mais do que se for gerado a partir de um motor a diesel convencional. Embora em termos de custos esse resultado não seja animador, isso não impede o uso da energia solar, apenas indica que ele ainda não pode ser generalizado.

No caso da nova termoelétrica, em se tratando de uma unidade de grande porte (1.400 MW de potência instalada), o problema das emissões decerto será grave. Entretanto, é possível atenuá-las por meio de um sistema de medidas compensatórias centrado em projetos de sequestro de carbono, tais como reflorestamento e implantação de biodigestores. Tudo dependerá, então, de uma pauta propositiva a ser negociada junto ao empreendedor. O projeto somente deverá ser aceito se for realmente benéfico para a região e não for excessivamente deletério em termos globais.

Devemos lembrar que, do total de emissões por habitante da Região Metropolitana do Recife, mais de noventa por cento provém do uso de combustíveis fósseis em veículos de transporte e, dos dez por cento restantes, a metade advém do consumo de carne, sobretudo, bovina. Assim, mesmo sendo importantes, as emissões provenientes do uso de energia elétrica pelas famílias não ultrapassam três por cento.

Pernambuco precisa assumir um posicionamento estratégico nesta questão e não simplesmente fechar as portas às empresas que utilizem óleo combustível. Lembremo-nos de que o Brasil não assumiu metas específicas para redução das emissões no Protocolo de Kyoto (1997), tampouco nos painéis que se lhe sucederam. E mesmo no recente encontro de Durban, tudo restou como promessa vaga. Na verdade, o país sempre defendeu o princípio das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, o que implica “um esforço para a redução do ritmo de aumento das emissões”, posição essa que também foi adotada pelos demais países em desenvolvimento. Por suposto, no caso brasileiro, a internalização da postura diplomática deveria reservar mesma proporção, isto é, as regiões e os estados menos desenvolvidos devem arcar com menores ônus.

Uma vez que a usina termoelétrica será construída para a melhoria do sistema elétrico nacional como um todo (hoje praticamente interligado de norte a sul do país), as responsabilidades pelas emissões devem ser assumidas prioritariamente pela União e não por estados ou municípios individualmente. Isto requer um arranjo participativo dos entes federativos, para que se evite tomadas de decisão unilaterais.

Nas atuais regras do jogo, considero ingênuo Pernambuco descartar o empreendimento sem sequer avaliar as medidas compensatórias locais. Ambientalismo sem radicalização ainda é a melhor forma de defender a natureza e o ser humano.

Responses

  1. acho péssima a qualidade ambiental do Recife: não se tem parques com árvores de grande porte, as poucas que restam são muito mal cuidadas e não existe por parte da prefeitura uma programação decente de replantio, ao contrário! as pessoas pouco têm consciència da importância fundamental da existência de árvores; acho que o nosso tempo de salvar a cidade está se esgotando, mas ainda é possível

  2. Alô Jaques,
    neste contexto (Guido Mantegas) tem um grupo no Facebook que talvez você vai apreciar:
    http://www.facebook.com/groups/340046679429028/
    SDS
    Edwin

  3. Amei encontrar seu Blog, graças a seu artigo sobre o “buraco no mar” (excelente!). Eu também prefiro pelo romantismo, mas sua lógica é muito boa… deve ser Terra de Fernando mesmo! Cadastrei-me e vou te seguir…
    Verônica Nery

    • Verônica,
      Agradeço sua mensagem e vou postá-la no meu blog.
      Apareça nos encontros da APL ou UBE!
      Um abraço, Jacques.


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